Soldados do Exército da Colômbia  • Reprodução/@ejercitonacionalcolombia

A Colômbia se encontra em um momento crucial de sua história política, com a eleição presidencial pautando um debate intenso sobre o futuro da segurança nacional. O país, que enfrentou seis décadas de conflito interno e lamenta a perda de mais de 450 mil vidas, observa agora uma disputa eleitoral que polariza duas visões distintas para combater a crescente ameaça de grupos armados ilegais. Analistas políticos e militares convergem na avaliação de que o próximo presidente herdará o complexo desafio de recuperar o controle territorial perdido sob a gestão anterior, além de mitigar a violência persistente e enfrentar as nuances do crime organizado que se ramificou. A percepção de insegurança nas áreas urbanas e a expansão do poder de facções criminosas nas zonas rurais se tornaram o epicentro da campanha, delineando o caminho para o segundo turno das eleições.

Os Desafios Iminentes de Segurança e as Propostas dos Candidatos

Dicotomia de Estratégias: Confronto Militar vs. Negociação de Paz

Os eleitores colombianos, ao se dirigirem às urnas, confrontam duas propostas radicalmente opostas para o futuro da segurança. De um lado, Abelardo De La Espriella, um advogado de 47 anos e novato na política, emerge como o principal nome da direita, prometendo uma ofensiva militar sem precedentes contra os grupos armados, o narcotráfico e o crime organizado. De La Espriella defende o encerramento das negociações de paz que, segundo ele, não produziram resultados concretos durante os quatro anos do governo de esquerda do presidente Gustavo Petro, que se despede do cargo. Sua liderança nas pesquisas de intenção de voto no segundo turno reflete a inquietação da população com a situação atual.

Em contraste, o senador Ivan Cepeda, de 63 anos, representa a continuidade das políticas de paz. Sua plataforma propõe dar prosseguimento às negociações e buscar aprovação legislativa para uma lei que ofereça benefícios legais a gangues que optarem pelo desmantelamento de suas estruturas. A centralidade da questão da segurança nesta campanha foi um fator determinante para a vitória de De La Espriella no primeiro turno, conforme observou o analista político Eduardo Pizarro. Ele destacou o aumento da percepção de insegurança nas cidades, evidenciado por preocupações com extorsão e pequenos delitos, enquanto nas áreas rurais, a expansão dos grupos armados impacta diretamente a vida dos civis.

Independente do vencedor, a expectativa é de um possível recrudescimento dos ataques por parte dos grupos armados no início do novo governo. Essa tática, de acordo com um oficial aposentado do alto comando militar da gestão anterior, visa demonstrar força e garantir uma posição vantajosa em futuras negociações. A necessidade de uma estratégia que combine uma segurança robusta com soluções negociadas, de forma coordenada, é um consenso entre especialistas. Pizarro reforça que o próximo governo precisa investir na reconstrução das forças armadas, aprimorar a capacidade de inteligência e, crucialmente, sufocar os lucros das redes criminosas para minar sua sustentação.

A Ampliação do Poder dos Grupos Armados e as Críticas à Gestão Atual

Radiografia de uma Expansão: Números, Territórios e Capacidade Operacional

Os dados oficiais revelam um cenário complexo: enquanto homicídios e roubos registraram queda na maioria das grandes cidades colombianas, a extorsão, por outro lado, apresentou um aumento significativo em pelo menos uma área urbana. Contudo, o panorama mais alarmante reside na expansão das organizações criminosas. Um relatório de segurança acessado pela Reuters indicou que, entre 2022 e o primeiro semestre de 2026, o número de integrantes de grupos armados ilegais quase dobrou, saltando de aproximadamente 13 mil para 25 mil. Esse crescimento exponencial inclui o Clã do Golfo, as facções dissidentes das antigas Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) e o Exército de Libertação Nacional (ELN).

Essas organizações consolidaram seu controle predominantemente em regiões rurais, zonas estratégicas para o tráfico de drogas e a exploração de mineração ilegal. Um relatório da ouvidoria do país aponta que um quarto dos municípios colombianos já registra a presença ou atividade desses grupos armados, evidenciando uma perda substancial de controle estatal. Fontes de segurança, sob condição de anonimato, mencionaram que a administração de Gustavo Petro teria afastado mais de 70 generais do exército e da polícia, incluindo especialistas em inteligência, o que resultou em uma redução da capacidade operacional das forças de segurança.

Para um ex-general, também anônimo, o combate eficaz aos grupos armados exige a restauração urgente da capacidade de mobilidade das Forças Armadas. Grande parte da frota de helicópteros Black Hawk, de fabricação americana, e Mi-17, de origem russa, encontra-se inoperante devido à escassez de peças de reposição. Além disso, a estratégia de segurança deve ser complementada por programas sociais, como a promoção da substituição voluntária da coca – matéria-prima da cocaína – por outras culturas agrícolas, auxiliando os agricultores a migrar para alternativas econômicas lícitas. “Não será fácil — há muito trabalho a fazer — mas é possível”, resumiu o general, ilustrando a magnitude do desafio.

Perspectivas e o Caminho Complexo para a Estabilidade

O Ministro da Defesa, Pedro Sánchez, defendeu veementemente as ações do governo cessante, afirmando que a gestão de Petro conseguiu retirar quase 16 mil integrantes de grupos armados do conflito, principalmente por meio de capturas e rendições. Sánchez também destacou um aumento de 60% na destruição de maquinário pesado utilizado na mineração ilegal e a apreensão de impressionantes 3.300 toneladas de cocaína, um volume que se equipara à soma total dos confiscos realizados pelos três governos anteriores. Em uma crítica às narrativas opositoras, o ministro declarou à Reuters que “alguns procuram promover o medo para depois vender esperança. Eles promovem um problema, ou o ampliam, ou o maximizam, exageram-no, e depois tentam vender a solução, pelo menos retoricamente. E no caso da Colômbia, fazem isso com a questão da segurança.”

O chefe da polícia, ecoando essa visão mais ampla, ressaltou que o crime não pode ser combatido unicamente com armas, dada sua intrínseca ligação com autoridades corruptas e redes criminosas transnacionais. Para ele, uma estratégia abrangente deve incluir programas de substituição de culturas, a legalização da mineração informal e investimentos robustos em saúde, educação e infraestrutura rodoviária. A Fundação Ideias para a Paz (FIP), um influente think tank independente, em seu recente relatório, reiterou a necessidade de avançar com o acordo de paz de 2016 com as antigas Farc, especialmente no que tange às reformas sociais em áreas rurais que permanecem pendentes. A FIP conclui que “não podemos cair na visão reducionista de escolher entre paz e segurança”, sublinhando que a estabilidade duradoura da Colômbia dependerá de uma abordagem multifacetada que integre ambas as dimensões de forma harmoniosa. O próximo presidente, independentemente de sua inclinação política, enfrentará a árdua tarefa de costurar essas complexas variáveis para forjar um futuro mais seguro para a nação.

Fonte: https://www.cnnbrasil.com.br

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