O cenário político paraense para as eleições de 2026 começa a se desenhar com a emergência de novas forças e a persistência de antigas estratégias. Em Itaituba, no Pará, a pré-candidatura de Ellayne D’Almeida à Assembleia Legislativa do estado surge como um elemento disruptivo, prometendo uma abordagem focada na defesa de setores específicos e um posicionamento político claro. Enquanto acordos de bastidores e alianças tradicionais parecem consolidar-se em torno de grupos já estabelecidos, a presença de D’Almeida provoca discussões sobre a renovação política e o enfrentamento do que muitos definem como a “Velha Política”. A disputa por uma vaga no legislativo estadual promete ser intensa, com temas como o desenvolvimento regional, a representatividade de grupos marginalizados e a ética na gestão pública dominando o debate eleitoral que se aproxima, marcando um embate entre diferentes visões de futuro para o Pará.
A Emergência de Ellayne D’Almeida e a Nova Plataforma Política
Propostas e Posicionamento no Cenário Eleitoral Paraense
Ellayne D’Almeida ingressa na pré-campanha para as eleições de 2026 com uma plataforma de compromissos públicos claramente definida. Seus discursos e propostas giram em torno da defesa intransigente da classe garimpeira, um setor que, segundo seus apoiadores, tem sido negligenciado por representantes políticos que, no passado, prometeram suporte. Além da questão mineradora, a pré-candidata também prioriza o fortalecimento do agronegócio e o incentivo à produção rural, pilares econômicos cruciais para diversas regiões do Pará. Outro ponto central em sua agenda é a proteção e a garantia dos direitos das mulheres, buscando fortalecer a presença feminina em todas as esferas sociais e econômicas do estado.
No tabuleiro político que se forma para as eleições vindouras, Ellayne D’Almeida destaca-se por seu alinhamento com o campo da direita, posicionando-se como uma das poucas pré-candidatas com essa identificação na corrida por uma cadeira na Assembleia Legislativa do Pará. Essa clareza ideológica contrasta com o movimento de articulações que caracterizam a “Velha Política”, onde a formação de alianças tradicionais e negociações nos bastidores são a norma. As dinâmicas observadas sugerem que um “balcão de negócios” político está sendo montado novamente, reunindo lideranças e candidatos em torno de arranjos que frequentemente orbitam a influência do grupo político do governador Helder Barbalho, aliado ao governo federal.
A candidatura de D’Almeida representa um desafio direto a essa lógica. Ao apresentar uma plataforma focada em setores específicos e com um posicionamento ideológico distinto, ela busca atrair um eleitorado que se sente desamparado pelas estruturas políticas tradicionais. A defesa da classe garimpeira, por exemplo, é um tema sensível e de grande apelo em regiões como o sudoeste paraense, onde a atividade mineral é vital para a economia local. Sua estratégia parece ser a de construir uma base de apoio sólida a partir de pautas específicas e de um discurso que propõe uma ruptura com os modelos políticos enraizados no estado.
A Velha Política e as Mudanças de Alinhamento
Dinâmicas de Poder, Alianças e as Críticas ao Modelo Tradicional
A expressão “Velha Política” tornou-se um termo comum para descrever um modelo de governança caracterizado pelo tradicional “toma lá, dá cá”, clientelismo e troca de favores. Suas características incluem a distribuição estratégica de cargos públicos, a liberação de verbas em troca de apoio parlamentar, a formação de alianças com grupos políticos tradicionais para a manutenção do poder e as negociações que ocorrem nos bastidores entre dirigentes partidários. Críticos desse modelo apontam também para a utilização da máquina pública para acomodar interesses de grupos aliados e para a frequente inversão de discursos de adesão ou rompimento político, muitas vezes contrariando promessas feitas durante as campanhas eleitorais.
Nesse contexto, chama a atenção a reorientação de algumas lideranças políticas que, em momentos anteriores, mantinham um discurso contundente contra esse sistema. Um exemplo notável é o do deputado estadual Wescley Tomaz. No início de sua trajetória política, Tomaz conquistou um eleitorado significativo justamente por adotar uma postura de enfrentamento ao grupo político liderado pelo governador Helder Barbalho. Durante esse período, suas críticas eram frequentes contra o MDB no sudoeste paraense, especialmente em relação à influência exercida pelo grupo do ex-prefeito Valmir Climaco, e ao governo estadual como um todo. Sua principal bandeira sempre foi a defesa da retomada da atividade garimpeira na região do Tapajós.
No entanto, o cenário político testemunhou uma mudança significativa na postura do parlamentar. Wescley Tomaz passou a aproximar-se politicamente do mesmo grupo que antes combatia. Sua atuação parlamentar concentrou-se quase exclusivamente na defesa da atividade garimpeira, sem a apresentação de outras propostas de grande alcance para a região, conforme apontam seus críticos. Como é comum na política, essas aproximações frequentemente resultam em dividendos para ambos os lados. Atualmente, Wescley Tomaz integra a base de apoio do governador Helder Barbalho e declarou apoio ao projeto político liderado pela vice-governadora Hana Ghassan. Essa mudança de posicionamento surpreendeu parte de seus antigos eleitores, alguns dos quais desembarcaram de sua base de apoio.
Paralelamente a essas movimentações, observadores do cenário estadual recordam que indicadores sociais divulgados por órgãos oficiais revelam uma realidade preocupante no Pará. O estado concentra 11 dos 21 municípios brasileiros com os menores Índices de Desenvolvimento Humano e renda do país. Essa situação, argumentam os críticos do governo, contrasta de forma marcante com o volume de investimento institucional em publicidade governamental, que visa a promover a gestão de Helder Barbalho, levantando questionamentos sobre as prioridades e a efetividade das políticas públicas implementadas.
Estratégias e Conclusões sobre o Cenário Político Paraense
O Desafio da Renovação Diante da Lógica do Poder Estabelecido
A dinâmica da “Velha Política” muitas vezes revela estratégias complexas para neutralizar candidaturas que emergem como potenciais disruptoras. Uma das manobras observadas para conter o avanço de Ellayne D’Almeida consiste em estimular a hipótese de que ela aceite disputar o cargo de vice-governadora em uma eventual chapa encabeçada por outro nome, como o Dr. Daniel. A argumentação dos defensores oportunistas dessa tese é que, caso D’Almeida saia da disputa proporcional, seus votos poderiam ser redistribuídos entre candidatos já consolidados na corrida por vagas na Assembleia Legislativa. Essa movimentação, se concretizada, exporia uma lógica típica do modelo político tradicional: a prioridade não seria fortalecer uma candidatura competitiva ou ampliar a representatividade de um projeto político, mas sim preservar interesses eleitorais já estabelecidos e proteger espaços de poder conquistados ao longo dos anos.
Essa estratégia reflete uma visão pragmática e, para muitos, oportunista da atividade política. Ela pode ser resumida por um antigo ditado popular que continua a ecoar nos bastidores do poder: “Farinha pouca, meu pirão primeiro!”. A ideia de que, com um competidor forte fora do caminho, as chances de outros serem eleitos melhoram, sublinha a prioridade da manutenção do status quo em detrimento da renovação ou da ética. A possível saída de Ellayne D’Almeida da disputa proporcional para uma vaga de vice-governadora seria um movimento que, embora pudesse parecer um avanço em sua carreira, na prática, serviria para realinhar as forças políticas e evitar a fragmentação de votos que poderia beneficiar a “nova política”.
A pré-candidatura de Ellayne D’Almeida, portanto, não é apenas um movimento eleitoral; ela representa um teste para a capacidade de renovação política no Pará. Seu desafio é confrontar uma estrutura profundamente enraizada em acordos de bastidores e em uma lógica de poder que privilegia a manutenção de interesses estabelecidos. A maneira como ela e sua equipe navegarão por essas águas turbulentas será determinante para o impacto de sua campanha. O embate entre a proposta de uma política mais alinhada a pautas específicas e a manutenção de um sistema que se adapta para sobreviver definirá, em grande parte, o tom das próximas eleições no estado e as perspectivas de mudança para os cidadãos paraenses, que anseiam por maior transparência e eficácia na representação política.