FONTE/CRÉDITOS: Alana Gandra - Repórter da Agência Brasil

A Trajetória e o Legado do Harmonia Enlouquece

Nascido em 7 de abril de 2001, no Dia Mundial da Saúde, o grupo Harmonia Enlouquece emergiu como um farol de esperança e inovação na psiquiatria brasileira. Sua formação, que integra pacientes e profissionais de saúde do CPRJ, quebrou paradigmas e estabeleceu um modelo de cuidado em saúde mental onde a expressão artística é valorizada como ferramenta terapêutica. Desde sua concepção, o grupo tem sido reconhecido como um exemplo de sucesso na integração da cultura no processo de tratamento, alinhando-se aos princípios do SUS de um cuidado abrangente e humanizado.

O CPRJ, sob a gestão da Secretaria de Estado de Saúde do Rio de Janeiro, é amplamente referenciado no país por sua abordagem em psiquiatria humanizada. Esta filosofia de tratamento prioriza não apenas a medicação e a terapia tradicional, mas também a escuta ativa, a valorização das narrativas individuais e o estímulo ao protagonismo dos pacientes em seu próprio processo de recuperação. A música, nesse contexto, transcende a mera recreação, tornando-se um catalisador para a autoestima, a comunicação e a reinserção social. A relevância cultural e o impacto social do Harmonia Enlouquece foram recentemente chancelados com o prestigiado Prêmio Asas (Aldir Blanc-RJ), um reconhecimento do seu valor artístico e da sua contribuição para a sociedade. Ao longo de sua história, mais de 75 pessoas já contribuíram para o grupo, que hoje é composto por 13 integrantes, sendo nove pacientes e quatro colaboradores, evidenciando uma política de portas abertas e inclusão contínua.

Vinte e Cinco Anos de Inovação Musical na Saúde Mental

Às vésperas de completar seus 25 anos em 2026, o Harmonia Enlouquece representa mais do que um grupo musical; é um símbolo da resiliência humana e da eficácia de abordagens terapêuticas não convencionais. Ao longo de sua jornada, o grupo não apenas produziu 65 músicas gravadas, mas também construiu uma comunidade onde a arte se torna um veículo para a superação de desafios. A longevidade e o sucesso do Harmonia Enlouquece ressaltam a importância da continuidade de projetos que empoderam indivíduos em tratamento psiquiátrico, oferecendo-lhes um espaço para a criatividade e a autodescoberta. O ambiente do CPRJ, com suas oficinas de arte e o foco na cultura, cria um ecossistema de apoio que permite aos pacientes florescerem, desmistificando a ideia de que a doença mental limita a capacidade criativa ou de participação social.

A Voz Principal: Hamilton de Jesus Assunção e a Criação Musical

No coração do Harmonia Enlouquece pulsa o talento inegável de Hamilton de Jesus Assunção, um paciente do CPRJ desde 1998 e o principal compositor e vocalista do grupo. Sua história é um testemunho do poder transformador da arte. Tendo iniciado seu tratamento psiquiátrico em 1984, Hamilton encontrou um novo propósito e um canal de expressão quando foi convidado pelo psicólogo Sidney Dantas a participar da oficina de música que viria a dar origem ao Harmonia Enlouquece. Sua contribuição é monumental: das 65 músicas gravadas pelo grupo, impressionantes 62 são de sua autoria, além de outras composições guardadas em seu acervo pessoal. O diretor-geral do CPRJ, Francisco Sayão, que também é músico amador na banda, enfatiza a centralidade de Hamilton, afirmando que “Ele faz a letra, a música e interpreta. Sem ele, a gente não tem o que cantar. Noventa e cinco por cento das músicas são dele”.

O mais recente álbum, “O Quinto dos Infernos”, mantém essa tradição, apresentando 13 faixas, sendo 11 delas inéditas e compostas por Assunção. Suas letras e melodias não são apenas expressões artísticas, mas também reflexos profundos de experiências vividas e superadas. Hamilton, com a sabedoria de quem encontrou na música uma aliada, descreve sua importância de forma eloquente: “Música é uma coisa maravilhosa. Ela levanta o nosso astral, mesmo quando ele está em baixa”. Essa perspectiva é a essência do que o CPRJ busca oferecer: um ambiente onde as oficinas de arte, frequentadas desde o primeiro dia por aqueles em condições de participar, não registram evasão, provando a eficácia e o engajamento gerado por tais atividades. A jornada de Hamilton, de paciente a prolífico artista, é um exemplo contundente da capacidade de recuperação e de contribuição de indivíduos que recebem um tratamento que valoriza sua integralidade e potencial.

O Gênio Criativo Por Trás das Melodias Terapêuticas

A produção musical do Harmonia Enlouquece, largamente impulsionada por Hamilton de Jesus Assunção, é um reflexo direto do processo terapêutico e da filosofia do CPRJ. Cada composição serve como um diário, um desabafo ou uma celebração, transformando vivências complexas em arte acessível. A música atua como uma ponte entre o mundo interior dos pacientes e o exterior, permitindo-lhes comunicar sentimentos, pensamentos e experiências que talvez não fossem expressos de outra forma. O papel dos profissionais de saúde, neste contexto, vai além da clínica, tornando-os facilitadores e co-criadores de um ambiente onde a saúde mental é abordada de maneira holística. A autenticidade das músicas do grupo ressoa profundamente com o público, desmistificando a doença mental e promovendo uma maior compreensão e empatia.

Expansão de Horizontes: Projetos e Impacto Futuro na Comunidade

Além da produção musical, o Centro Psiquiátrico do Rio de Janeiro demonstra um comprometimento contínuo com a inovação e a integração social através de diversos projetos. Desde 2016, o Ponto de Cultura do CPRJ promove encontros mensais que reúnem integrantes de outras instituições de saúde mental, como o Instituto de Psiquiatria da UFRJ (Ipub), o Instituto Municipal Philippe Pinel e Centros de Atenção Psicossocial (CAPs), além de pacientes internos e de hospital/dia. Essa iniciativa cria uma valiosa rede de intercâmbio de experiências e conhecimentos, fortalecendo a comunidade de saúde mental do Rio de Janeiro.

Com uma visão ambiciosa, o diretor-geral Francisco Sayão planeja expandir ainda mais a interação do CPRJ com a sociedade. A ideia é estabelecer uma agenda de visitação pública a partir das 16h, horário em que as consultas já foram encerradas, garantindo que não haja interferência no funcionamento clínico da unidade. Ao mesmo tempo, essa abertura permitirá que o Harmonia Enlouquece receba visitas de forma mais estruturada, oferecendo ao público a oportunidade de conhecer de perto o trabalho do grupo e do centro, contribuindo para a desestigmatização das instituições psiquiátricas.

A comunicação interna do CPRJ também está em processo de modernização. Atualmente, o centro possui uma rádio que toca as músicas do grupo e outros conteúdos nas salas e pátios. Com a conclusão da aparelhagem técnica, Sayão pretende levar a rádio para o formato online, operando em tempo integral e criando podcasts. Essa expansão digital representa um passo significativo para amplificar o alcance das mensagens do CPRJ e do Harmonia Enlouquece, permitindo que sua música e sua filosofia alcancem um público muito maior, rompendo barreiras geográficas e sociais. A equipe para essa iniciativa já está quase totalmente formada, indicando um avanço concreto para a sua implementação.

O lançamento do álbum “O Quinto dos Infernos” está programado para ocorrer no Museu da História e da Cultura Afro-Brasileira (MuhCab), um local que sublinha a relevância cultural e social da iniciativa. O evento incluirá uma exposição que traçará uma linha do tempo do CPRJ de 2001 a 2026, destacando sua evolução e impacto. A programação contará ainda com a exibição do documentário “Harmonia Enlouquece – Um mergulho musical pela saúde mental”, dirigido por Flávia Lima, que narra a inspiradora trajetória da banda e celebrará seus 25 anos de existência em 2026. Complementando a experiência, haverá uma roda de conversa focada nos temas da música, inclusão e saúde mental, reforçando o compromisso do CPRJ em fomentar o diálogo e a conscientização. Este conjunto de projetos e o evento de lançamento reiteram o papel pioneiro do CPRJ e do Harmonia Enlouquece na promoção de uma saúde mental mais humanizada e integrada à cultura, impactando positivamente vidas e transformando percepções.

Fonte: https://www.rastilhodepolvora.com.br

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